CIÊNCIA E TECNOLOGIA: PILARES DO DESENVOLVIMENTO E DA SEGURANÇA NO MUNDO GLOBALIZADO

Palestra proferida pelo Professor Raymundo de Oliveira, em Angola, durante as Quartas Jornadas de Engenharia dos países de Língua Oficial Portuguesa, dia 26 de maio de 1997.

 

A tese central da exposição é a íntima relação entre domínio tecnológico e independência. Hoje, na época das revolução Industrial, do domínio do átomo, das telecomunicações, dos computadores, da engenharia genética, dos novos materiais, da Internet, não pode um País sonhar em ser independente, sem que tenha algum domínio dessas tecnologias.

Apresento a seguir, em quadro anexo, datas marcantes dessa Revolução Tecnológica, onde fica explícita a aceleração das descobertas, como se tudo, quase tudo, tivesse acontecido ontem, a semana passada, nos últimos instantes.

 

A REVOLUÇÃO TECNOLÓGICA

 

2.400.000 AC - INSTRUMENTO DE PEDRA

1.000.000 AC - CONTROLE DO FOGO

5.000 AC - USO DO COBRE

140 AC - PAPEL

1040 - PÓLVORA

1654 - RELÓGIO DE PÊNDULO

1781 - LEI DE LAVOISIER

1800 - BATERIA

1859 - ORIGEM DAS ESPÉCIES-DARWIN

1865 - LEIS DE MENDEL

1873 - LEIS DE MAXWELL

1877 - MOTOR COMBUSTÃO INTERNA

1882 - BACILO DA TUBERCULOSE-KOCH

1895 - CINEMA E OS RAIOS X

1898 - RADIOATIVIDADE

1904 - VÁLVULA

1905 - TEORIA DA RELATIVIDADE

1921 - VACINA ANTI-TUBECULOSE-BCG

1924 - TELEVISÃO

1928 - PENICILINA - A.FLEMING

1929 - UNIVERSO EM EXPANSÃO

1930 - MOTOR A JATO

1940 - TV A CORES

1942 - REATOR NUCLEAR

1944 - ADN - SUPORTE DA INFORMAÇÃO GENÉTICA

1948 - COMPUTADOR E TRANSISTOR

1948 - BIG BANG

1951 - COMPUTADOR COMERCIAL

1953 - ADN-DUPLA HÉLICE

1955 - PÍLULA ANTI-CONCEPCIONAL

1957 - LASER E SATÉLITE ARTIFICIAL

1958 - USINA NUCLEAR, COMP.A TRANSISTOR E CIRCÚITO INTEGRADO

1960 - TECLADO E DISCO MAGNÉTICO

1962 - ROBOT INDUSTRIAL

1963 - CASSETE

1965 - COMP. A CIRCÚITO INTEGRADO

1966 - FIBRA ÓTICA

1970 - DISCO FLEXÍVEL

1971 - MICROPROCESSADOR

1973 - WINCHESTER, MOUSE E 8080

1975 - COMPUTADOR PESSOAL E SUPERCOMPUTADOR

1975 - FRACTAL

1976 - APPLE E MICROSOFT

1979 - WORDSTAR E WORDPERFECT

1981 - IBM PC E DBASE II

1982 - COMPACT DISC E COMP. PORTÁTIL

1983 - LOTUS 1-2-3 E C CD-ROM

1984 - MACINTOSH

1988 - PROCESSAMENTO PARALELO,

CABO DE FIBRA ÓTICA P/ TELEFONIA (40000 LIGAÇÕES)-FRANÇA,UK,USA

1989 - CHIP COM 1 MILHÃO DE TRANSISTORES

1991 - SUPERCOMPUTADOR 9BI/S

1993 - PENTIUM

1995 - FITA SUPERCONDUTORA

Fica patente a rapidez das mudanças. Esquematicamente, pode-se afirmar, como tem sido colocado, que o conhecimento científico dobra a cada 10 anos. Com isso, mais de 80% do que usamos, hoje, foi descoberto ou desenvolvido após a Segunda guerra mundial. Em outras palavras, 50 % do que vamos usar dentro de dez anos, ainda não foi inventado ou desenvolvido.

É interessante observar que há uma certa distância entre a invenção no laboratório e a utilização dessa invenção como produto, a inovação. Esse período, em média, varia de país para país. Esquematicamente, admite-se que na Inglaterra esse período é de 7,7 anos; nos EUA, de 7,4 anos; na Alemanha, de 5,2 anos, sendo de 3,4 anos no Japão.

O Japão estaria bem na frente no processo de inovação, na engenharia, no chão de fábrica. Tem se escrito muito sobre as relações que estariam por trás dessa vantagem do Japão, procurando-se entender e absorver contribuições que iriam desde as relações nas empresas, até as relações institucionais entre as empresas e entre empresas e o governo japonês. É inegável o apoio institucional que o MITI, Ministério do Comércio Exterior do Japão, tem dado a suas empresas, buscando um trabalho agregado, apoiando-se mutuamente, tendo, sempre que possível, uma visão de nação, de conjunto, ao lado da concorrência entre elas que, de alguma forma, permanece, em geral não predatória.

É interessante também, e até certo ponto surpreendente, que até agora, os estados Unidos tenham mais de 200 prêmios Nobel e o Japão só 5, sendo que só um na área tecnológica, na década de 30.

Por outro lado, o avanço tecnológico tem levado a profunda mudança na composição da mão de obra nos diferentes setores da economia. Hoje, nos EUA, há 3 % da mão de obra na agricultura, 25 % na indústria e 72 % no terciário, aproximadamente. O campo mecanizado, hoje informatizado, necessita de muito menos mão de obra. A indústria que absorvia essa mão de obra, também está se encolhendo, em função da automatização e informatização crescentes. A área de serviços cresce proporcionalmente muito. Entretanto, mesmo ela não tem conseguido absorver a mão de obra liberada pelo campo e pela indústria. Tem-se o desemprego tecnológico, que ameaça o mundo todo. Daí a luta, das nações, pelos empregos. Essa luta tem crescido e vai crescer mais, muito mais.

Um País como o Brasil precisa estar consciente disso e lutar pelos bons empregos, que irão para as áreas que detiverem a inteligência no trabalho, a tecnologia de ponta.

O desemprego que se vê de engenheiros no Brasil não é porque esteja formando engenheiros demais; é, sim, porque estamos perdendo, para as economias do primeiro mundo, os melhores empregos. Nessa realidade, para que queremos ter engenheiros, bastaria ter técnicos de segundo grau.

O Brasil tem cerca de 5 engenheiros para mil trabalhadores, enquanto no Primeiro Mundo a relação é de 15 a 25 por mil.

Estamos perdendo, e se não houver uma postura consciente, vamos perder mais, pois o mundo ficou pequeno pelas telecomunicações. Hoje as Bolsas de Valores funcionam 24 horas por dia, as compras futuro descolam o produto de sua negociação, sendo os volumes de negociação muito superiores à produção propriamente dita.

Os chamados países do Terceiro Mundo precisam estar cientes do alongamento da cadeia produtiva, havendo um número maior de elos entre a matéria prima e o produto final. Esses elos são formados, fundamentalmente, pela substituição de matéria por informação, sendo os trabalhadores diretos substituídos por indiretos, crescendo a área de projetos, serviços, onde o colarinho branco substitui o macacão azul.

No início do século para cada trabalhador indireto havia 9 trabalhadores diretos; nos anos 50, essa relação se transformou em 5 para 1; no fim do século, agora, amanhã, espera-se algo como 1 para 9. Total inversão do que havia há 100 anos.

Imaginemos o que havia de trabalhador direto e indireto na construção do avião DC3 e no Boeing 747; nas Centrais Telefônicas do passado e nas de hoje; na agricultura, com a chegada crescente dos produtos químicos e da engenharia genética.

O Brasil desenvolveu alguns núcleos tecnológicos que o mundo aprendeu a respeitar. Infelizmente, são mais respeitados no exterior que no Brasil. São exemplos o CENPES – Centro de Pesquisas da Petrobrás, com um trabalho maravilhoso na produção em águas profundas e na transformação do parque de refino para atender às características do óleo e do mercado brasileiros.

O CPqD, Centro de Pesquisas do Sistemas Telebras, que desenvolveu nossa Central por Programa Armazenado - CPA, com trabalhos de vanguarda em fibras óticas, sem nos esquecermos do cartão telefônico, cartão indutivo com tecnologia totalmente desenvolvida no país.

E não falamos do CEPEL, do LNCC, do CTI, todos com trabalhos de vanguarda.

Entre as empresas, algumas se destacaram por acreditar no desenvolvimento de tecnologia dentro de casa. Podemos citar a ZETAX, Equitel, Metal Leve, Cobra, Módulo, Estrela, Vale do Rio Doce, entre outras.

O Brasil não parte do zero. Tem história, tem vitórias, tem derrotas.

Os países têm o direito e o dever de buscarem seu caminho de desenvolvimento, aí incluído o desenvolvimento tecnológico, sem o qual é infantil qualquer tentativa de autonomia, de independência.

O caminho tecnológico não é único, não está predefinido, tem alternativas, há opções. Em especial num país de 8,5 milhões de quilômetros quadrados, 160 milhões de habitantes, com características próprias de matérias primas, com um parque industrial de peso.

Desenvolver um caminho próprio é lutar por empregos, empregos qualificados, empregos mais bem pagos, não nos limitando a simples usuários de pacotes fechados desenvolvidos para outras realidades.

Gosto sempre de lembrar que o primeiro relatório do Clube de Roma colocava a limitação dos recursos do planeta Terra (Limits to Growth) e que o segundo relatório pregava o chamado crescimento orgânico, numa analogia ao crescimento dos órgãos, onde uns países seriam a cabeça e outros os pés. Onde queremos ficar ?

Hoje, em nome da chamada globalização, o Brasil está se abrindo, ou melhor, se escancarando. A política de cabotagem é um bom exemplo.

Queremos ser moderno. Ser moderno deve ser imitar os EUA, o Japão …

Pois bem a política de cabotagem dos EUA exige que a tripulação seja americana, o navio americano e a empresa americana. Nós, em nome da modernidade, abrimos para quem quiser vir, seja de onde for. Isso não é modernidade, é burrice.

O Brasil tem um invejável parque instalado. Não podemos sucatear esse parque, em nome de uma abertura, onde damos tudo e nada recebemos em troca.

Entretanto, nem tudo são lágrimas. Há esperança !!!

Começam a aparecer as primeiras derrotas do modelo neoliberal: México, Argentina, Coréia, …. E até mesmo o Japão.

Desenvolve-se uma consciência crescente de que não podemos continuar a abrir, sem qualquer proteção.

Um importante instrumento de defesa dos países do Terceiro Mundo precisa ser a formação de blocos regionais. Tem havido avanços, embora ainda haja muita desconfiança, sendo os EUA o principal obstáculo à consolidação desses blocos. Ainda agora, face à possibilidade de que o Mercosul venha a se consolidar, tentam os EUA dividir-nos, pelo oferecimento de vantagens setoriais, onde seu grande medo é a consolidação do Bloco.

O Brasil não tem sabido cumprir o papel que deveria ter na liderança dos países do Terceiro Mundo. Até porque está um pouco melhor que a média, deveria entender o responsabilidade maior que isso traz. Vejo, aqui em Angola, o carinho dos cidadãos dos país de língua portuguesa, por nosso Brasil. Nosso caminho é esse, consolidando nossos laços: laços afetivos pela história comum, laços sólidos pela cultura que precisa unificar os diferentes.

Saibamos enfrentar as tormentas da divisão, os acenos do neoliberalismo que faz do Deus mercado instrumento da exploração e da divisão entre nossos povos, na certeza de que só há saída numa comunidade lusófona, onde sejamos países irmãos e não peças do imperialismo.

Na esperança da aproximação cada dia maior entre nossos povos, despeço-me, já saudoso desta linda terra e deste povo tão carinhoso.

Viva Angola, viva nossa cultura comum, viva a aproximação maior entre nossos países.

 

Raymundo de Oliveira

Presidente do Clube de Engenharia